terça-feira, 7 de agosto de 2012

Fora


Havia uma mulher e seu tricô. Que horas eram? Ela não sabia. O relógio parara e as janelas estavam fechadas. Todas as três, com seus vidros coloridos, seladas pela madeira carunchada. Nem mesmo se dava conta do tempo que fazia. Apenas ocupava-se em vestir e desvestir sua estola antiga. Para ninguém, a senhora quebrou o silêncio:

- Eu me lembro de uma criança. Ela me disse "boa noite". Eu beijei-lhe a testa e ela se foi. Isso foi há alguns minutos.

Enquanto a lã escapava de seus dedos para se enrolar na agulha, os pensamentos daquela mulher se misturavam. Antes de tanta poeira, a voz de Elizeth Cardoso era ouvida na vitrola. As janelas escancaradas. E muita dança sobre o assoalho. Era tudo tão lindo! Porém ela não sabia se era lembrança ou imaginação.

- Eu me lembro de uma criança, aqui. Levantou-me a testa para eu beijar e disse-me "boa noite". Ela se foi. E isso foi há uns 30 anos.

O novelo dançava conforme a manta nas mãos da senhora ia se formando. Parou um intante. Tirou a estola de deixou-a de lado. Olhou para as frestas da janela, parecia claro lá fora. Largou o tricô, tirou o chinelo e as grossas meias e se levantou. Caminhou com dificuldade até a porta e abriu.

- Eu disse-lhe "boa noite". E ganhei um beijo na testa. Eu acho que eu tenho que ir. Agora.

Era de dia. Chovia. A mulher andou até a calçada, séria. Até que abriu os braços. Ela ria. E como ela ria! Ela gargalhava! A sua loucura era doce. Escancarada portão À fora. Encharcada ela chorou sem se notar. Não por tristeza, tampouco alegria. Chorou como que ri sem razão. Havia muito dela dentro. E agora, enfim, havia muito dela fora.  

Um comentário:

Eduardo Escames disse...

Que lindo. Que lindo!
Me surpreende. Admiro e respeito.