sábado, 23 de março de 2013

Sobressalto


Eu te procuro nos meandros das histórias que vertem de minhas mãos. Eu te vejo correr para o meio da noite enquanto o desenho da tarde vai se apagando no horizonte. E o seu nome está sempre na página seguinte.

Existe uma sombra sem voz que me sufoca. Eu tenho medo que você esteja sob ela, me esperando com alguma música lenta que eu ainda não conheço. Pelas ruas, você é todos os rostos da multidão que passa por mim.

Cada palavra que se perde entre os meus dedos, é uma nova despedida que eu faço. Você sempre está de partida, como se a poesia fosse ser interrompida antes do fim. Eu acordo de sobressalto, mas você já foi.

Numa forte batida, a porta se fecha. Silêncio, não tem mais ninguém aqui. Então você sussurra no meu ouvido: é acaso. Breve. Assombro e fulminação. Estamos no chão e olhamos para o teto, como olhássemos as estrelas.

Vê aquela constelação? Vejo. E meus olhos se fixam no forro de madeira, enquanto você descreve minúcias do que não está lá. As histórias secam de minhas mãos e, feito vento, elas saem em ciranda dos seus lábios.

Percorro seus olhos, ombro, mão. Um passo, volta, dança. Desço seu pescoço, suas costas. Apague a luz. O tempo inexiste, então. O dia e a noite adormecem no meu colo. Mas você acorda lentamente, eu já fui.

Um comentário:

Bruna Mata Cavassani disse...

Ainda que vocês estejam dentro da casa, observando o teto, as constelações que ela vê estão lá. Do lado de fora, acima de onde os olhos podem ver.