domingo, 29 de setembro de 2013

Reescrever

Você é um verso existencialista que eu não sei escrever. Existe uma dor em viver porque a vida é circunscrita. O que a limita é o absurdo, pois não existe sentido a ser encarado no mundo senão o que nós damos a ele. E eu não ouço o seu mundo. Ele é mudo. Em preto-e-branco.

Eu insisto sobre o papel, como quem nasce e chora. O leite escorre e pinga das minhas mãos. Existe fome entre os homens: alimentai-vos. E nesse início no meio de alguma coisa que eu não entendo, tudo o que se cria é fadado ao fim. Antes de eu ser, já era e vai continuar sendo depois que eu não for mais nada. "Já era!", eu lhe digo.

O andar de cima é sempre mais escuro. Então eu desço a escada com passos pesados. As janelas da sala estão abertas, aos poucos a luz vai subindo pelo meu corpo até estremecer minhas pupilas. Que horas são? Corro até a porta e abro com exasperação. Choveu. A grama está molhada. Chego até o portão e antes de partir olho pra janela lá no alto: ele fita o infinito através do vidro da janela até cerrar os olhos e se virar para o breu do aposento. 


A maçaneta girou lentamente às minhas costas. Abaixei os olhos sobre o papel. A escrita estava incompleta, no entanto, àquela hora, quem se importaria? Eu não podia ouvir seus passos, eu a senti se aproximar conforme arrepiavam-se os pelos do meu corpo. Eu vi seu reflexo na janela: vestia vermelho, como nos filmes encaixotados no porão. Ela pousou as mãos no meu pescoço e eu fechei meu olhos enquanto virava minha cabeça em sua direção. Ela me beijou.